segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Da verdadeira e solida devoção

A palavra devoção, do latim, corresponde dedicação. Pessoa devota é a dedicada a Deus. Não há termo mais forte do que «dedicação» para indicar a disposição da alma a tudo fazer e sofrer pela pessoa a quem se dedica.

A dedicação ás criaturas (refiro-me á legitima e autorizada por Deus) tem necessariamente limites. A dedicação a Deus não os tem, nem os pode ter. Se tiver a mínima reserva, a mais leve exceção, não será mais dedicação. A verdadeira e solida devoção é a disposição da alma pela qual se está pronto a agir e sofrer em tudo, sem exceção nem reserva, ao bel-prazer de Deus. Tal disposição é o mais excelente dom do Espirito Santo. Nunca serão demais o ardor e a constância em pedi-la; ninguém deve ufanar-se de tê-la inteira e perfeita, porque pode sempre crescer, ou em si mesma, ou em seus efeitos.

Vemos, por esta definição, ser a devoção algo de interior, de muito íntimo, visto afetar o fundo da alma e o seu ponto mais espiritual: a inteligência e a vontade. A devoção não consiste no raciocínio, nem na imaginação ou na sensibilidade. Não somos devotos, por sermos capazes de bom raciocínio a respeito das coisas de Deus, por termos grandes ideias, belas imagens dos objetos espirituais  ou porque nos enternecemos algumas vezes até ás lagrimas.

Vemos ainda não ser a devoção coisa passageira, mas habitual, fixa, permanente, extensiva a todos os momentos da vida e reguladora de toda a conduta.

A devoção funda-se no principio de que Deus, sendo a única fonte e o único autor da santidade, a criatura racional deve em  tudo depender d’Ele e deixar-se inteiramente governar pelo espirito de Deus. A criatura deve sempre aderir a Deus do mais intimo do seu ser, atenta constantemente a ouvi-Lo em seu intimo, sempre fiel em realizar o que Ele pede a cada momento. Não podemos ser realmente devotos, se não formos almas interiores, dados ao recolhimento, habituados a entrarmos em nós mesmos, ou antes, a nunca nos dissiparmos, a possuirmos a nossa alma em paz.



Quem se entrega aos sentidos, á imaginação e ás paixões, não digo nas coisas criminosas, mas naquelas que não são más em si mesmas, nunca será devoto, pois o primeiro efeito da devoção é cativar os sentidos, a imaginação e as paixões e nunca se deixar arrastar pela própria vontade.

O curioso, precipitado, amigo da exterioridade, inclinado a imiscuir-se nos negocias alheios, não pode habitar em si mesmo. O espirito critico, maldizente, irônico, arrebatado, desdenhoso, altivo, susceptível em tudo que se relacione com o amor próprio, apegado a seu parecer, indócil, teimoso ou escravo do respeito humano, da opinião publica e, por conseguinte, fraco, inconstante, instável nos princípios e na conduta, nunca será devoto, no sentido que  tenho explicado.  O verdadeiro devoto é homem de oração, fazendo suas delicias em entreter com Deus, sem nunca, ou quase nunca sair da sua presença. Não pensa sempre em  Deus, o que é impossível neste mundo, mas fica sempre unido ao Senhor, pelo coração, deixando-se conduzir em tudo pelo seu espirito.

Para fazer oração não necessita de livro, de método, nem de esforços da inteligência ou da vontade. Basta-lhe entrar docemente em si,  onde sempre encontra Deus, a paz, por vezes saborosa, por vezes árida, mas sempre in­tima e real.

Prefere a oração na qual muito dá a Deus, a oração na qual sofre, a oração que combate pouco a pouco o amor próprio sem lhe dar alimento algum, numa palavra, a oração sim­ples, nua, despida de imagens, de sensibilidade e de tudo quanto a alma possa notar ou sentir com qualquer outra espécie de prece.

O verdadeiro devoto não busca absoluta­mente a si mesmo no serviço de Deus, esforçan­do-se por praticar a máxima da Imitação: Em qualquer parte onde estiverdes, abnegai-vos.
O verdadeiro devoto procura cumprir perfeitamente todos os deveres do seu estado e todas as conveniências reais da sociedade, é constante nos exercícios de devoção, mas não seu escravo; interrompe-os ou suspende-os, dei­xando-os até por algum tempo, quando o exige alguma razão de necessidade ou de simples con­veniência. Contanto que não faça a sua von­tade, estará sempre certo de fazer a de Deus. O verdadeiro devoto não se precipita em busca de boas obras: espera apresentar-se a ocasião.
Faz tudo que de si depende para obter êxito, mas abandona este a Deus.

Prefere as bôas obras humildes  ás gran­diosas, não se esquivando, porém, a estas quan­do interessam á gloria de Deus e edificação, do próximo.

O homem' devoto não se sobrecarrega de orações vocais e praticas que não deixam tempo para respirar; conserva sempre a liberdade de espirito; não é escrupuloso nem inquieto a res­peito de si mesmo, caminha com simplicidade e confiança.

Determina-se a não recusar coisa alguma a Deus, a nada conceder ao amor próprio e a não cometer  faltas voluntárias; mas não se perturba, procede com retidão, não é meticuloso. Caindo em alguma falta não se perturba: humilha-se, ergue-se e não pensa mais nisso. Não estranha suas fraquezas, suas imperfeições, nunca desanima. Sabe que nada pode, mas que Deus tudo pode. Não se fia em seus bons propósitos e suas resoluções, senão na graça e bon­dade de Deus. Mesmo se caísse cem vezes por dia, não desesperaria, mas, estendendo os braços amorosamente para Deus, haveria de suplicar- Lhe que o erguesse e dele  se apiedasse.


O verdadeiro devoto tem horror ao mal, porém, maior ainda é o seu amor ao bem. Pen­sa mais em  praticar a virtude do que em evitar o vicio. É generoso, magnânimo e havendo necessidade de arriscar-se por seu Deus, não teme feridas, nem a morte. Prefere, finalmente, prati­car o bem, mesmo com o risco de cometer al­guma imperfeição, a omiti-lo para evitar o pe­rigo de pecar. Nada mais agradável do que a companhia de um verdadeiro devoto: é simples, franco, reto, despretensioso, meigo, afável, sincero e verdadeiro. A sua conversa é alegre, interessante, pois sabe tomar parte em divertimentos  honestos. Leva a condescendência até os últimos limites, contanto que não haja nisso pecado. Digam o que quiserem, a verdadeira devoção não é triste, nem para o devoto, nem para os outros.

Como poderia ser triste quem goza continuamente do verdadeiro  bem:, do único bem o homem? Tristes são as paixões, a avareza, ambição, o amor. Para esquecerem os des­gostos que devoram o coração, atiram-se impetuosamente os homens aos prazeres tumultuosos, variando-os sem cessar, fatigando a alma sem jamais a contentar. Quem servir a Deus, como deve, há de reconhecer  a verdade da sentença: Servir a Deus é reinar, mesmo na ignominia e nos sofrimentos. Os que procuram neste mundo a felicidade  fora de Deus, todos sem exceção verificam a palavra de Santo Agostinho:  O coração do ho­mem, unicamente feito para Deus, estará sempre inquieto enquanto não repousar em Deus.

(Manual das almas interiores, coleção de opúsculos inéditos do Padre Grou, da Companhia de Jesus)

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