segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Os frutos da simplicidade

A simplicidade produz ainda outros frutos admiráveis.
Concede à alma dois bens excelentes, que, no dizer de Santa Teresa, são indispensáveis  àqueles que se iniciam na vida espiritual: a alegria e a liberdade de espírito.
A mais generosa das almas, quando não é simples, atormenta-se, agita-se e facilmente se desalenta. A própria generosidade muita vez é causa de escrúpulo e sob pretexto de delicadeza, ilude a consciência. “Estarei enganada? Ter-me há Deus perdoado? Será esse o meu dever? Estarei no bom caminho?” Continuamente, formula mil perguntas que a perturbam e desorientam. [...]

Outro efeito da simplicidade é fazer-nos sinceros, e mais ainda cortar pela raiz o mais temível dos males para o progresso da alma: a ilusão.
Referindo-se à ilusões, o Padre Faber, esse profundo psicólogo, depois de nos haver mostrado a extensão da ruína que causam no domínio da vida espiritual, declara que a simplicidade é o único remédio para esse mal terrível e universal.
As almas que mais que analisam não são as que melhor se conhecem bem, nem, principalmente, as que mais depressa se corrigem. O repetido exame de uma ferida, para observa-lhe a cura, acaba por piorá-la pela irritação.
Ao contrário, a alma que olha a Deus, prontamente, atinge ao conhecimento de si mesma e, melhor ainda, consegue renunciar-se inteiramente.


Deus é verdade: contemplando-O sem cessar, a alma torna-se semelhante a Ele. A alma simples se conhece ao primeiro olhar; e quando, em horas de fadiga e esquecimento, acontece-lhe roçar a terra, assim que o percebe, ergue-se num bater de asas e sobe depressa ás mais altas regiões, donde descera num momento de negligência.
A alma simples se conhece porque conhece a Deus, que é pura luz e lhe esclarece a consciência. À medida que procura e ama a Deus, aprende a desprezar-se e a fugir de si mesmo.
                                                                         *
Quando sincera, a alma simples é também generosa  para vencer-se.
A maioria de vossos defeitos provém da falta de simplicidade. Se vos deixais levar pela inveja e pelo ciúme, se estais inquietas, atormentadas por desejos violentos, por afeições humanas demasiado absorventes, colocai-vos do lado oposto à simplicidade, pois somente olhais a criatura, enquanto a simplicidade contempla a Deus.
A simplicidade torna a alma generosa: unifica suas ações, fortifica sua coragem, aquece e aviva o seu ardor. Impele-a aos mais nobres empreendimentos e jamais permite que se canse. Da mesma forma que a pomba ao cortar o espaço nos dá a impressão de não mais se esforçar, parece que nada custa à alma simples, e que Deus a conduz e ele próprio realiza tudo o que ela faz de grande: “fecit mihi magna qui potens est...” “Por que me fez grandes coisas aquele que é poderoso.”
                                                                         *
A simplicidade edifica o próximo, porque é a origem do bom caráter, da serenidade, da benevolência, da afabilidade, de todas as virtudes atraentes e agradáveis que encantam e repousam, inspiram confiança e faz verdadeiro bem.
A alma que não é simples tem sempre algo de egoísta e de pessoal, que transparece involuntariamente e transpira na aparência, nas atitudes, nos gestos, nas palavras e nas ações.
A alma simples nos desorienta, tão grande é a sua humildade e abnegação. Faz-nos sentir e encontrar a Deus. Junto dela, estamos em segurança. Não a podemos ver e dela nos aproximar sem que nos tornemos melhores. A alma simples não tem conhecimento do bem que faz ou se admira de o haver praticado. E este bem é tanto maior quanto menos o percebe, crescendo, ainda, à medida que ela se identifica com Deus. Todas as suas obras são abençoadas, porque são feitas no espírito de Deus e pelo seu amor.
                                                                       *
Enfim, é inexprimível a alegria que a alma simples dá a Deus e a glória que Lhe procura. Porque faz constantemente a vontade de Deus em todos os momentos do dia e da noite, santifica seu nome e aumenta seu reino.
Até seu repouso e seu sono tornam-se um hino em louvor ao altíssimo, pois, se “dorme, seu coração vigia” sempre, com perseverante pureza nas suas intenções.
Casta pomba, ela arrebata sem cessar o coração do divino Esposo; e, depois de haver esvoaçado o dia inteiro, repousa e estabelece a sua morada na Santa Chaga que Ele recebeu por nosso amor.

“A simplicidade segundo o Evangelho, instruções de senhoras e de jovens, por Monsenhor Gibergues ,  tradução de Rachel de Castro e  Ainda do Val, Atlantica editora, Rio de Janeiro, 1945)

Nenhum comentário:

Postar um comentário