terça-feira, 23 de agosto de 2016

As orações jaculatórias


Há duas práticas muito conhecidas de todas as almas piedosas, e eu te convido meu caro Theotimo, a que te familiarizes com elas; são: primeiro a comunhão espiritual de que te falarei no capitulo seguinte, e depois o hábito de elevar a miúde o coração a Deus por aquilo que se chamam “orações jaculatórias”. É coisa certa que poucas práticas contribuem tanto como estas duas para tornar uma alma unida a Deus e habitualmente recolhida. Começa por te acostumares a ver sempre a Deus presente diante de ti, e a entreteres-te familiarmente com ele como com o melhor amigo. Abre-lhe o coração, fala-lhe de todos os teus dissabores, de tuas alegrias, de teus temores. 
Para isto não tens necessidade de  ir procurar longe: ao pé de ti o tens sempre: se trabalhas, se andas, se estás sentado, ele nem um instante te deixa; se dormes, ele coloca-se a teu lado, assenta-se de alguma sorte em teu travesseiro, para melhor velar sobre ti.

Dize-lhe muitas vezes: “Oh meu Deus! amo-vos de todo o meu coração.” Sabe aproveitar-te de tudo para elevar tua alma a esse bom Pai e te excitarás ao seu amor. Quando, por exemplo, se te oferece uma bela campina, um sítio agradável, dize: “Meu Deus, como vossas obras são belas!”, ou antes: “Senhor, as vossas obras têm tanta beleza; que deveis ser vós mesmo?!” à vista de um castelo, de um magnifico palácio, dize: “Ai!  Nestes palácios não é que ordinariamente se acha a verdadeira felicidade; essa só habita no coração dos que vos amam, ó meu Deus!” ou então: “O que são estes palácios brilhantes de ouro e pedrarias em comparação do Céu? Oh meu Deus, dai-me o vosso paraíso.” Quando diante de ti se fala de riquezas, glórias honras, dize: “Oh Deus meu! vós só me bastais; sois todo o meu bem e toda a minha glória”. Se vês um pobre pecador que ofende a Deus, dize: “Oh Jesus, tende piedade deste homem”. Em seguida tornando a ti mesmo, dize: “Ai! eu ainda faria pior, se me abandonásseis á minha fraqueza. Bendita seja a vossa misericórdia.” Quando acontece alguma desgraça, ou alguma coisa que te aflige, dize: “Meu doce Jesus, vinde tomar parte na minha dor e aliviar-me, vós bem vedes quanto sofro”. Assim também quando estás na alegria convida Nosso Senhor a vir partilhar contigo teu contentamento. 

Exemplos destes poderia eu multiplica-los até o infinito, mas se tu amas a Jesus não é preciso estar a sugerir-te o que lhe deves dizer: teu coração saberá inspirar-te. Mas é particularmente quando cometeste alguma falta que é preciso elevar o coração a Deus afim de evitar a perturbação e desassossego que só do inferno é que vem. Lança-te com toda a simplicidade aos pés de Jesus, confessa-lhe a tua falta com a mesma candura que um menino confessa à sua mãe e dize-lhe: “Eis, ó terno Mestre! ó meu melhor amigo! eis do que eu sou capaz: prometo-vos ser-vos fiel, e a cada instante vos ofendo. Ah! perdoai-me ainda esta falta, porque eu me arrependo dela e vos amo, e vinde em meu socorro afim que doravante não vos cause outro desgosto”. Depois desta curta oração conserva-te em paz como se não houveras pecado. Se cem vezes deves repetir a mesma súplica, humilha-te, conforma-te e dize sempre: “Meu Jesus, apesar de minhas quedas continuas não quero cessar de amar-vos e de ter confiança em vós; sim, sim, meu Deus, eu vos amo.


(As chamas do amor de Jesus, ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção, Abade D. Pinnard) 

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