sábado, 20 de agosto de 2016

Do amor puro



Amor puro é amor de Deus sem mescla de amor próprio. Assim, todo ato de amor produzido por motivo, quer da perfeição de Deus, quer da esperança, quer do reconhecimento, será puro desde que não seja eivado de amor próprio.

Só Deus sabe se O amamos sincera e puramente. Deliberou que a tal respeito nenhuma certeza tivéssemos, e isto para o nosso bem, afim de nos conservarmos humildes e confiantes n'Ele. Que é, porém, o amor próprio? É o amor de nós mesmos, um amor que visa a nós e além de nós não vai, um amor cujo verdadeiro fim não é Deus. Existe nas coisas espirituais quando amamos a virtude, os dons de Deus, a santidade de Deus e o próprio Deus em relação a nós, pelo gosto que nisso temos, pelo proveito que daí auferimos: em suma, quando nos constituímos o centro desses afetos e dos respectivos alvos.  Se este amor nos induz a buscar e desejar coisas proibidas, torna-se pecado mortal; mas não passa de pecado venial ou mera imperfeição, quando recai sobre objetos realmente bons e santos, dando sempre a Deus a preferência que lhe é devida, porque a desordem não está, então, no fundamento e na essência do nosso amor, senão na maneira pela qual amamos.
O amor de Deus é sempre infinitamente puro em sua origem, que é o próprio Deus. É puro, embora em graus diferentes, nos anjos e nos bem-aventurados.


Não padece dúvida que o amor próprio jamais poderá ter entrada no céu; faz-se mister que das suas mínimas máculas se expurgue e purifique o coração, quer nesta vida, quer no purgatório.
Como a marcha ordinária da graça é atrair-nos a Deus por uma certa doçura e gosto sensível, o santo amor nos principiantes é sempre eivado de amor próprio e Deus não se ofende com essa mácula, que é consequência necessária da nossa miséria. Serve-se mesmo do amor próprio para nos desapegar das coisas da terra e nos dar gosto pelas celestes; serve -se dele para nos obrigar a realizar no começo uma porção de sacrifícios que, se o não tivéssemos, deixaríamos de fazer. Sem dúvida, é o amor de Deus que nos leva a esses sacrifícios e desapegos, bem como a prática da mortificação e oração, mas se o amor próprio não encontrasse aí alimento algum, se isso não lhe parecesse delicioso e superior a todos os prazeres da terra, nunca abraçaríamos a vida interior.



O amor dos principiantes não é puro e, em regra geral, não o pode nem deve ser. Mas pouco a pouco Deus o vai purificando e  ensina à alma a também expurgá-lo. Deus subtrai, com intervalos e por algum tempo, as consolações: ficamos áridos e distraídos na oração e Comunhão, o gosto, os arrebatamentos, os transportes de afeto tornam-se mais raros e duram menos tempo.
No começo a alma desola-se, julga-se abandonada por Deus, é tentada a deixar tudo. Se o fizesse, daria prova de ser mercenária,  de amar e procurar somente a si mesma na devoção. Mas sendo fiel no tempo da aridez, sem afrouxar absolutamente, dando a Deus com a mesma generosidade tudo quanto Ele pede, começa desde então amar a Deus por Ele mesmo e não por causa dos seus dons, tais são as primeiras purificações do amor.

Após alternativas mais ou menos longas de consolações e aridez, se a alma é nobre e generosa, Deus retira completamente o sensível, só raramente e por instante a faz libar o seu amor. Assim desnudado e despojado, o amor torna-se mais puro e mais simples. A alma não sente mais que ama e é amada, não o percebe mais, nem já reflete sobre isso. Entretanto, ama mais fortemente do que nunca, mas sem pensar em si: o amor próprio nada mais encontra a que se apegue. A criatura desaparece, entrega a Deus o coração todo. Nesse estado quase não produzimos atos formais, permanecemos em exercício simples e contínuo amor. A prova de que amamos não está mais no sentimento, mas no esquecimento de nós mesmos; não contemplamos mais o nosso íntimo, para ver e gozar o que ai se passa; afastamo-nos cada vez mais do nosso eu, para abismar-nos e perder-nos em Deus.
Todavia, essas não são ainda as grandes purificações do amor, as quais se realizam:

1º) Pelas tentações que parecem destruir em nós as virtudes e na verdade as confirmam e aperfeiçoam. Tentações contra a pureza, tentações contra a fé, a esperança e a caridade para com o próximo, tentações de impiedade e blasfêmia, revolta de todas as paixões. Tudo isso passa-se fora da alma, cujo fundo não se altera e o que ignora por completo. A alma julga ter consentido e, embora se procure tranquilizá-la, conserva sempre certo receio de haver pecado. Ei-la pois, investida, coberta, compenetrada da sua miséria; vê em si apenas imundície e corrupção; acha-se então muito longe de ter estima de si mesma, despreza-se, odeia-se, considera -se um monstro.
 Vê-de como o amor próprio não só já não age nessa alma nem mancha mais suas ações e os seus motivos, mas ainda como que se transforma em disposição inteiramente oposta. É o amor de Deus e o amor mais puro, que produz esse efeito, pois a alma não se odeia desse modo senão porque crê ser contrária a Deus, porque se julga pecadora. Oh! Quão longe está de consentir no pecado! Preferiria o inferno. Contudo, as misérias que experimenta persuadem-na de que nela só há abominação e pecado; e se Deus a põe em tal estado, é no intuito de inspirar-lhe santo ódio de si mesma, fundado na aversão ao pecado. Que belo ato de contrição é esse ódio, e como a alma expia, de maneira bem agradável a Deus, não os pecados atuais; porém os que possa ter cometido outrora!

2°) O amor de Deus purifica-se pelas humilhações. A alma, ainda há pouco reputada santa por toda uma comunidade, uma cidade inteira, vê-se de repente acabrunhada de calúnias; desaparece a boa fama de que gozava, consideram-na hipócrita, as suas palavras mais inocentes são levadas a mal, as suas mais santas ações julgadas criminosas. Vê-se abandonada, evitada; até os seus amigos, os mais íntimos confidentes viram-se contra ela, a autoridade a condena. A alma cala-se, porém, deixa -se julgar e condenar, à consciência, que a persuade de ser culpada, ajunta-se o testemunho dos homens, que a trata como tal. Não concebe absolutamente contra estes nem ódio e nem ressentimento e, embora não tenha de recriminar-se de nenhuma das coisas de que a acusam, julga merecer realmente todos os maus tratos infligidos. Que acontece, então, ao amor próprio? Não encontra mais apoio nem do testemunho da consciência, nem na opinião dos homens. Tudo levanta-se contra ele, dentro e fora; o amor de Deus, que se torna sempre mais puro, o persegue, expulsa e não lhe dá guarida.

3º) A última purificação do amor é a feita pelo abandono do próprio Deus. O amor próprio perseguido parecia ainda ter esse asilo, Deus o retira. Ao mesmo tempo que entrega a alma às aparências do pecados e às humilhações muito reais da parte dos homens, Ele próprio a trata como severo juiz; parece rejeitá-la. A sua justiça desfere-lhe os mais tremendos golpes; ela julga-lhe certa e irremediavelmente perdida. Que estado! Como é pavoroso, desesperador para o amor próprio! Ele luta, defende-se, quanto pode, nessa última trincheira. Mas, finalmente, tem que ceder; Deus é mais forte; e, por um último sacrifício, fruto do mais puro amor, é arrancado da alma o amor próprio, até a mínima raiz. Por esse sacrifício, o amor de Deus fica absolutamente expurgado de toda eiva e campeia soberano no coração do qual foi banido seu inimigo.


Eis os graus pelos quais o amor de Deus atinge a sua última purificação. É erro dizer ou pensar que Ele não se compadece com a esperança. A alma jamais a perde, até nas violentas tentações de desespero. Deus e o demônio são reconhecidos por suas obras, o demônio começa pelo orgulho e começa pela carne. Deus começa por atacar a carne e acaba por aniquilar o orgulho, servindo-se ás vezes para isso das tentações da carne.
Não pode, portanto, haver estado de amor puro que exclua a esperança ou se torne incompatível com essa virtude: sustentar a sua possibilidade constitui formal heresia.


(Manual das almas interiores, compêndio de Opúsculos inéditos do Padre Grou, da Companhia de Jesus, editora vozes, 1932) 





Nenhum comentário:

Postar um comentário