sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Vinde Espírito Santo



Foi uma surpresa para Rosa ver que era ela a única menina na igreja no dia  da Crisma. Havia, entretanto, dois garotinhos, e as três crianças  ajoelharam-se no santuário aos pés do Arcebispo de Lima. O sol inundava o pequeno templo, rebrilhando na mitra dourada do Arcebispo e arrancando cintilações do magnífico anel que ele usava na mão direita. Que dia maravilhoso aquele! E que pena que o povo de Quivi não o compreendesse.  Pelo direito, pensava Rosa, a igreja devia estar repleta.

O Arcebispo era de pequena estatura, delgado e contava cinqüenta e nove anos. Sentou-se numa cadeira em frente aos três pequerruchos ajoelhados e explicou o ato que ia realizar-se: O Espírito Santo, a terceira Pessoa  da Santíssima Trindade, ia descer em suas almas. Aí permaneceria  enquanto aquelas almas não ofendessem seriamente a Deus. E ficaria para  sempre, não ficaria?

- Para sempre, disseram os dois rapazinhos.

- Para sempre, eternamente, disse Rosa.

O Arcebispo sorriu, e o mesmo fez o padre Francisco Gonzales, que estava de pé ao lado deles, muito atento, revestido do hábito da Ordem dos mercedários. Então o Arcebispo rezou em latim, enquanto o padre Francisco foi a uma mesinha e trouxe um pratinho com óleo de oliva e bálsamo. Rosa ajoelhou-se perto do pratinho de óleo. Este santo óleo fora bento na  última quinta-feira santa para ser usado na administração do sacramento da Confirmação. Era o crisma. 

Fora da igreja rodavam as carroças nas ruas pedregosas. Vendedores ambulantes apregoavam suas mercadorias e as crianças indígenas riam e brincavam. No interior, porém, a cena era bem diferente. De pé, em frente do altar, o Arcebispo Turibio rezava em voz alta:

"Enchei-os com o espírito de vosso temor, e assinalai-os com o sinal da
cruz de Cristo, em vossa misericórdia, para a vida eterna. Pelo mesmo  Senhor nosso, Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina em  unidade com o mesmo Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém".

Mergulhou, então, a ponta do polegar direito no Crisma e traçou o sinal
da Cruz na fronte de cada um dos meninos: Rosa ergueu a cabeça quando se  lhe aproximou o Arcebispo. O Espírito Santo estava prestes a vir sobre ela. Havia de trazer-lhe força e coragem para ser uma boa e verdadeira cristã.

"Rosa, assinalo-te com o sinal da Cruz, e confirmo-te com o crisma da
salvação. Em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo. Amém".

Terminara. A criança levantou os olhos para o rosto amável do  Arcebispo. "A paz seja contigo", murmurou ele, e deu-lhe um tapazinho,  de leve, na face.


(Mary Fabyan Windeatt, Santa Rosa de Lima, o anjo dos andes)

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