quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O que é preciso ler e como é preciso ler

Quais são os livros que convém ler para esclarecer e incrementar a piedade? Coloquemos em primeiro plano a Escritura inspirada ou os livros do Antigo e do Novo Testamento e, muito particularmente, o Evangelho. Há, na palavra de Deus, uma força maravilhosa, um admirável poder de iluminação, um manancial inesgotável de salutares impulsos; pode-se ler sem cessar o Evangelho, e sempre se encontrarão novas luzes, sempre se haurirá nova
coragem. Tais livros são a obra de Deus que neles pôs uma virtude oculta que opera em toda alma que os lê com respeito e amor.

Depois da Bíblia, os livros compostos pelos santos são os mais salutares. Refletem melhor a doutrina do Evangelho; compostos, não como a Sagrada Escritura, sob a inspiração infalível, mas sob o impulso e com as luzes do Espírito Santo, trazem consigo a unção da graça. Pode-se dizer dos livros dos santos, o que Jesus dizia de seu precursor: são chamas ardentes e brilhantes, focos de luz e de calor; iluminam a alma e incrementam-lhe o fervor. As obras dos Padres e Doutores da Igreja, santo Agostinho, são Jerônirno, são Gregório, são Bernardo, santo Ignácio, são João da Cruz, são Francisco de Sales, santo Affonso de Ligório, santo Alberto Magno, o B. Suzo, são João Eudes, são Grignon de Montfort, o Veneravel Libermann, santa Gertrudes, santa Mechtilde, santa Brígida, santa Catharina de Senna, Santa Catharina de Gênova, santa Teresa, santa Maria Magdalena de Pazzi, etc., tem feito na lgreja um bem incomensurável.

Que bem não têm feito igualmente a sobras de autores que, embora não canonizados, tinham, em grau elevadíssimo, o espírito do Evangelho! Receberam certamente de cima, e cumpriram dignamente a missão de esclarecer seus irmãos. Assim podem citar-se as Conferências e Instituições de Cassiano, a Imitação, os livros de Tauler, Luiz de Blois, Dyonísio o Cartucho, Granada, Rodriguez, Lallemant , Surin, Luiz Dupont, Grou, Mons. Gay.

Citemos ainda, sempre entre os mortos, Gerson, Thomaz de Jesus, Saint-Jure, o P. Faber, etc.

De duas espécies são os livros próprios para leitura espiritual: os livros de doutrina e as vidas de santos personagens. Os primeiros nos ensinam o que devemos fazer; os últimos nos mostram o que tantos homens e tantas mulheres têm feito, eles que tinham a nossa natureza e, por conseguinte, nossas fraquezas e nossos defeitos. Verba movent, exempla trahunt, as palavras comovem e os exemplos arrastam; até as vidas inimitáveis, na opinião de são Francisco de Sales, não deixam de despertar um grande desejo do santo amor de Deus.

As vidas dos Santos tem, pois, mais eficácia para nos induzir á prática da virtude que as lições mais sábias. Quantos grandes servos de Deus nelas têm encontrado suas delícias! Era a leitura de predileção de são João Baptista de la Salle, e o venerável  João de l'Hopital a fazia de joelhos com um respeito igual ao seu fervor. Nos séculos passados, encontrava-se a Vida dos Santos na maioria dos lares cristãos e este livro tão precioso contribuía extraordinariamente para conservar nas famílias os sentimentos de fé, de fidelidade a Deus. Entretanto, não bastam os livros históricos. Os livros doutrinais, cheios de bons conselhos, de lições salutares, de exortações suaves e fortes, são necessários a quem quiser progredir na virtude. Cumpre, pois, alternar, lendo ora biografias edificantes, ora livros didáticos.

Na escolha destes últimos, é preciso ouvir o aviso do diretor espiritual e cada qual deve consultar seus gostos e as necessidades de sua alma; porquanto, o que melhor convém a uns, convém menos a outros e é somente lendo que se poderá julgar do fruto desta ou daquela leitura.

Desde que experimentamos que um livro nos fez muito bem, convém que o tornemos a ler mais tarde. Tiraremos, assim, proveito muito maior do que lendo outras obras que lisonjeariam, talvez, a nossa curiosidade, mas nos dariam menos luz e menos conforto. Lucra-se muito na leitura repetida de ótimos livros, entendem-se melhor e saboreia-se mais perfeitamente numa segunda leitura. Santo Thomaz de Aquino tinha constantemente debaixo dos olhos, sobre sua mesa de trabalho, as Conferências de Cassiano e não se cansava de relê-las. Santo Inácio gostava sobremaneira da Imitação. "Há quinze anos, escrevia a santa Joanna de Chantal, são Francisco de Sales, que trago no bolso o Combate espiritual e nunca o leio sem proveito.»

Mesmo quando se lê urna obra pela primeira vez, importa percorrê-la lentamente, atentamente, de maneira a bem compreendê-la e compenetrar-se das verdades que nos apresenta. «Quando ledes, diz santo Éfrem, não vos contenteis em folhear o livro ; mas, lede antes duas, três ou mais vezes a mesma passagem afim de lhe apanhar perfeitamente a significação.» Por este motivo é que as leituras privadas são geralmente mais frutuosas do que as que se fazem em comum.

Não Basta ler. ‘Multi legunt et ab ipsa lectione jejuni sunt’, diz são Gregório : muitos há que leem e que não tiram de sua leitura alimento algum.  É preciso ler com piedade, em espirito de oração, visando, não tanto adquirir ciência como provar, saborear as cousas divinas, recomenda são Bernardo: ‘Si ad legendum accedat, non tam quaerat scientiam quam saporem.’ Antes de começar a leitura espiritual, deve-se, pois, elevar o coração a Deus, pedindo-Lhe Suas luzes, repetindo com Samuel : ‘Falai, Senhor, o vosso servo escuta’. Qui legit inlelligat: ‘Quem ler isto entenda’ costumavam acrescentar os evangelistas, depois de referirem as palavras do Salvador. Mostram, com esta observação, que nem todos compreendem bem o que leem.

 Na tarde da Páscoa, Jesus ressuscitado abriu o espírito de seus apóstolos a fim deles entenderem as Escrituras, das quais, até então, não haviam tido a clara compreensão. Uma simples, mas fervorosa oração dispõe, pois, a aproveitar muito melhor este santo exercício. É preciso ainda ler com fé e respeito, com docilidade e com um vivo desejo de tirar proveito das lições que vão ser oferecidas. As Santas Escrituras, ensinava santo Agostinho a seu povo, são como cartas que vêm da nossa pátria celeste. ‘Quando oras, falas com teu celeste Esposo, escrevia são Jerônimo a Eustáchia ; quando lês, é Ele que fala contigo.’ E são Francisco de Sales, falando das obras dos Santos: ’Lede todos os dias um bocadinho com grande devoção, como se lêsseis missivas que os Santos vos houvessem mandado do céu para vos mostrarem o caminho e vos darem coragem para lá ir.’

Ler-se-á com mais proveito se se evitar a precipitação e a curiosidade e se, no correr da leitura, se parar de tempo em tempo para meditar e saborear as boas causas que se encontrarem e pedir a graça de fielmente seguir os conselhos dados. Os Santos, diz Rodriguez, aconselham-nos que façamos, quando lemos, o que fazem os pássaros quando bebem : bebem aos golinhos e, cada vez que o fazem, levantam a cabeça para o céu. Oratio lectionem interrumpat, pede são Bernardo,’ suspenda-se a leitura para orar.  A leitura praticada em espírito de oração, aproxima de Deus; é, com a meditação, o principal alimento da vida interior.



(A.  Saudreau, Manual de Espiritualidade)

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