domingo, 6 de agosto de 2017

Do amor que devemos ter a Jesus



O Servo - Ó Mãe Santissima de Deus, quando vivestes com Jesus em Nazaré, não o conheciam os homens, senão que O desprezavam e abandonavam. Uma consolação tinha Jesus, entretanto. Era a consolação de ser sinceramente, ardente e constantemente amado por sua Mãe. 

Por isso que conhecieis sua divindade e perfeições infinitas, Vós o amaveis acima dos Anjos e dos Santos, como jamais o amaram estes nem o amarão jamais. 

Tinha o vosso amor algo de muito mais excelente que o amor comum das mães. Nele o que vós amaveis era um filho, mas filho-Deus e Homem ao mesmo tempo. 

Daí esse imenso desejo de verdes amado por todas as criaturas racionais o Vosso Jesus, tanto quanto o amastes. 

Próprio a um amor puro é o procurar comunicar-se e desejar que todas as suas chamas incendeiem a todos corações. Era mister conhecerem Jesus, qual Vós o conhecieis, afim de o amarem com um amor tão perfeito como o vosso. Para falar dignamente desse amor, fora mister alguém ler em vosso coração o que sentieis por aquele que era o seu único objeto.

Abri-nos, portanto, Vós mesma, esse coração, ó Mãe! Dizei-nos do vosso Perfeito Amor! Desvendai-nos toda a pureza dele, a sua ternura, a sua vivacidade, e generosidade, enfim, dos sentimentos que animavam o vosso amor a Deus!




Maria- Filho amado, eu nunca fora digna de ser a Mãe de Jesus, se meu amor a ele não houvesse ultrapassado  o de todas as criaturas inteligentes. Cada dia aumentava em meu ser esse amor, porque dia a dia nesse Divino Filho eu ia descobrindo novas perfeições! Só sentia doçura  e felicidade nesse amor. Esse amor, meu filho, era minha vida, o meu repouso, o meu alimento, a minha alegria, as minhas delícias. Vida pobre e obscura era a minha vida em Nazaré! Não obstante, bem paga pelo tesouro que eu possuía na pessoa de Jesus. Só por possuir tamanho bem, é justo que alguém se julgue mais rico que os mais poderosos senhores da terra.
Feliz mil vezes quem vive com o amor de Jesus no coração, quem só para Ele deixa escapar  seus suspiros! Só o amor de Jesus tranquiliza e satisfaz o coração! Nada pode agradar por muito tempo sem esse amor. Que pode achar de agradável neste mundo quem não provou ainda o quanto Jesus é amável?
Quanto mais se ama a Jesus mais prazer se sente em amar Aquele que é verdadeira e infinitamente digno de ser amado.
Por maiores que sejam as tuas misérias nesta vida, nenhuma miséria equivale a miséria de não amar Jesus!
Quem não ama Jesus, porventura estudou quem é Jesus? Porventura sabe o quanto Ele é amável? Jesus reúne em si mesmo todas as perfeições naturais, porém de uma maneira tão eminente que essas perfeições representam a obra-prima do Criador! Jesus reúne em si todas as perfeições da graça, de tal modo que sua plenitude é que se vão saciar todos os homens! Jesus reúne em si todas as perfeições de Divindade que nele habita substancialmente. Jesus é poderoso pelo poder de Deus, belo pela beleza de Deus, sábio pela sabedoria de Deus, santo pela santidade de Deus!

O servo- 
Ai! Senhora! Ainda quando não fosse Jesus infinitamente amável por si mesmo, Ele o seria por me haver infinitamente amado! Os seus sofrimentos bastam-me como testemunho desse amor, cujo entendimento está muito acima da nossa pobre razão.

Maria- Acrescenta ainda, meu filho, que a extensão do seu martírio não lhe esgotara o desejo de sofrer, o qual ardia na alma de Jesus.
Nunca diz o amor: “Isso basta!”  mas de todos os amores o mais ardente e ansioso por se tornar conhecido foi o amor de Jesus! Ele teria dado para a tua salvação mais ainda do que o fez, se algo pudesse dar que fosse mais do que ele próprio!
Ó meu filho, se achas algum objeto mais digno dos teus afetos do que Jesus, ele consente que tu prestes atenção. Mas, se os merece ele, antes que qualquer outro, acima de qualquer outro, porque o recusares a Jesus?

O servo
Ai, Senhora Mãe do meu Deus! Como desaparece aos meus olhos tudo o que é deste mundo! Não quero mais doravante amar senão a Jesus!

Maria-
 Quem ama a Jesus, meu filho, despreza em verdade o mais que seja objeto de amor. Nada é o mundo para quem conhece a delícia do amor divino.

O servo- 
Todavia, bem entendo que de mim depende possuir a Jesus como amigo. Se eu desse de barato tão imensa felicidade, bem merecera eu viver para sempre desgraçado!

Maria- 
Sim, meu filho. Tão bom será se fizeres objeto único do teu amor aquilo que jamais dê lugar aos lamentos e vacilações; que não esteja sujeito às vicissitudes; que, longe de te ser um dia arrancado pela morte, ao contrário se torne pela morte a tua posse eterna! Ninguém senão Jesus é amigo fidelíssimo e constante: o que não falta quando os outros amigos abandonam.
Uma palavra apenas desse amigo basta para trazer consolo à alma aflita, enquanto os outros não são mais do que “consoladores importunos” (Jó. 162,2).
Que desgosto, que tristeza podes experimentar e que inimigo te poderá ofender se trouxeres o amor de Jesus no coração? Se Jesus reinar no teu coração, aí fazendo o seu trono, serás o homem mais rico, o mais poderoso, o mais feliz que haja neste mundo. É tal tesouro o amor de Jesus que em possuindo alguém, pouco caso fará de todos os outros bens. Pois não vês, filho, que poderoso demais é Jesus para contentar além da expectativa um coração que o ame?

O servo- Ó meu Jesus! Ó Deus meu! Pelo amor que vos consagrou Maria, suplico-vos a graça de vos amar, mas de vos amar de tal modo que nada eu ame acima de vós, que nada eu ame tanto como vós, que nada eu ame senão porque vos ame! Não posso tanto quanto o mereceis amar-vos ó meu Deus! Quero, porém, com apoio da vossa graça, amar-vos tanto devo, ao menos!  Abrasado quisera eu ser do fogo divino até que por ele me consumisse! Martírio grande é esse de conhecer quanto Jesus é amável e não poder amá-lo na medida que merece. Martírio grande, sim, que nada poderá mitigar senão o desejo sempre renovado de um mais sublime e ardente amor. "Eu vim trazer fogo á terra, e o que eu quero senão que ela se abrase?"


(Imitação de Maria, Por um religioso anônimo, Cap XXIV)

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